CENTRO UNIVERSITÁRIO EAD — CURSO DE BACHARELADO EM FARMÁCIA

NOME DO(A) ACADÊMICO(A)

USO PROLONGADO DE INIBIDORES DA BOMBA DE PRÓTONS (IBPs) E OS RISCOS ASSOCIADOS À SAÚDE

Cidade — UF
2026

NOME DO(A) ACADÊMICO(A)

USO PROLONGADO DE INIBIDORES DA BOMBA DE PRÓTONS (IBPs) E OS RISCOS ASSOCIADOS À SAÚDE

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Bacharelado em Farmácia, na modalidade de Educação a Distância, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel(a) em Farmácia.

Área de concentração: Atenção farmacêutica e farmacologia clínica.
Orientador(a): Prof.(a) Dr.(a) Nome do(a) Orientador(a).

Cidade — UF
2026

FOLHA DE APROVAÇÃO

Trabalho de Conclusão de Curso intitulado "Uso prolongado de inibidores da bomba de prótons (IBPs) e os riscos associados à saúde", de autoria de Nome do(a) Acadêmico(a), apresentado ao Curso de Bacharelado em Farmácia, considerado aprovado pela banca examinadora em ____/____/2026.

_________________________________________
Prof.(a) Dr.(a) Nome do(a) Orientador(a) — Orientador(a)

_________________________________________
Prof.(a) Me. Nome do(a) Avaliador(a) 1 — Avaliador(a)

_________________________________________
Prof.(a) Esp. Nome do(a) Avaliador(a) 2 — Avaliador(a)

Cidade — UF
2026

RESUMO

Os inibidores da bomba de prótons (IBPs) consolidaram-se como um dos grupos farmacológicos mais prescritos na prática clínica contemporânea, especialmente no manejo da doença do refluxo gastroesofágico, na prevenção de lesões gastroduodenais associadas ao uso de anti-inflamatórios não esteroidais e no tratamento de síndromes hipersecretoras. Apesar de sua eficácia reconhecida, o uso prolongado desses fármacos tem sido acompanhado por crescente preocupação em saúde pública, sobretudo em razão da ampliação de prescrições sem reavaliação periódica, da manutenção terapêutica além da indicação inicial e da automedicação. Nesse cenário, este trabalho teve como objetivo analisar criticamente as evidências científicas sobre os riscos relacionados ao uso prolongado de IBPs, com ênfase nos desfechos clínicos mais discutidos na literatura, como infecções intestinais, alterações ósseas, hipomagnesemia, deficiência de vitamina B12 e ferro, potenciais repercussões renais e fenômenos de rebote secretório.

Trata-se de estudo de natureza bibliográfica, com abordagem qualitativa e caráter descritivo-analítico, fundamentado em diretrizes clínicas, revisões sistemáticas, estudos observacionais de coorte e consensos de sociedades científicas. A análise demonstrou que, embora nem todas as associações observadas tenham força causal robusta, existem riscos biologicamente plausíveis e clinicamente relevantes em subgrupos específicos de pacientes, especialmente idosos, pessoas com multimorbidades, usuários de polifarmácia e indivíduos expostos a altas doses por períodos prolongados. Os achados também revelaram importante lacuna entre recomendações baseadas em evidências e a prática assistencial cotidiana, marcada por inércia terapêutica, fragmentação do cuidado e baixa adesão a estratégias de desprescrição.

Conclui-se que os IBPs permanecem medicamentos essenciais e, em diversas situações, insubstituíveis; contudo, seu uso deve ser continuamente reavaliado sob a perspectiva do benefício-risco individual, com definição clara de indicação, dose e tempo de tratamento. Destaca-se o papel do farmacêutico na orientação ao paciente, na revisão da farmacoterapia e no monitoramento de eventos adversos, contribuindo para o uso racional de medicamentos e para a segurança do cuidado. A discussão apresentada reforça a necessidade de educação em saúde, integração multiprofissional e fortalecimento da farmacovigilância como estratégias centrais para qualificar o manejo de usuários crônicos de IBPs.

Palavras-chave: inibidores da bomba de prótons; uso prolongado; segurança do paciente; desprescrição; atenção farmacêutica.

ABSTRACT

Proton pump inhibitors (PPIs) have become one of the most frequently prescribed pharmacological classes in contemporary clinical practice, particularly for the management of gastroesophageal reflux disease, prevention of gastroduodenal injury associated with nonsteroidal anti-inflammatory drugs, and treatment of hypersecretory disorders. Despite their well-established effectiveness, long-term PPI use has raised increasing public health concern, especially due to prescriptions maintained without periodic reassessment, therapeutic continuation beyond initial indication, and self-medication. In this context, the present study aimed to critically analyze scientific evidence regarding health risks associated with prolonged PPI exposure, focusing on outcomes most frequently discussed in the literature, such as intestinal infections, bone-related events, hypomagnesemia, vitamin B12 and iron deficiency, potential renal effects, and rebound acid hypersecretion.

This is a bibliographic study with a qualitative approach and descriptive-analytical design, based on clinical guidelines, systematic reviews, observational cohort studies, and statements from scientific societies. Findings indicated that, although not all observed associations are supported by strong causal evidence, there are biologically plausible and clinically relevant risks in specific subgroups, particularly older adults, patients with multimorbidity, individuals exposed to polypharmacy, and those receiving high doses for prolonged periods. The analysis also revealed a significant gap between evidence-based recommendations and routine care, often characterized by therapeutic inertia, fragmentation of follow-up, and limited implementation of deprescribing strategies.

It is concluded that PPIs remain essential medications and, in many situations, clinically irreplaceable; however, their use should be continuously reassessed from an individualized benefit-risk perspective, with clear definition of indication, dose, and treatment duration. The pharmacist’s role is emphasized in patient counseling, medication review, and adverse event monitoring, supporting rational use of medicines and safer care. This study reinforces the need for health education, multiprofessional collaboration, and stronger pharmacovigilance practices to improve long-term management of PPI users.

Keywords: proton pump inhibitors; long-term use; patient safety; deprescribing; pharmaceutical care.

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO10

2 INIBIDORES DA BOMBA DE PRÓTONS13

2.1 Conceito e principais fármacos13

2.2 Mecanismo de ação15

2.3 Principais indicações clínicas17

2.4 Farmacocinética, metabolismo e variabilidade interindividual19

2.5 Interações medicamentosas de interesse clínico21

2.6 Critérios de qualidade para prescrição inicial23

3 USO PROLONGADO DOS IBPs25

3.1 Quando o uso prolongado é indicado25

3.2 Uso irracional e automedicação27

3.3 Dificuldades na suspensão do tratamento29

3.4 Perfis de pacientes com maior risco de manutenção indevida31

3.5 Indicadores práticos para reavaliar necessidade de continuidade33

3.6 Estratégias de desprescrição passo a passo35

3.7 Desafios éticos e comunicacionais no uso prolongado37

4 RISCOS ASSOCIADOS À SAÚDE39

4.1 Infecções intestinais39

4.2 Fraturas e alterações ósseas41

4.3 Hipomagnesemia e alterações nutricionais43

4.4 Deficiência de vitamina B12 e ferro45

4.5 Possíveis alterações renais47

4.6 Refluxo rebote e dependência terapêutica49

4.7 O que está comprovado e o que ainda é associação51

4.8 Pneumonia e infecções respiratórias: interpretação contextual53

4.9 Microbiota intestinal e repercussões sistêmicas55

4.10 Eventos neurológicos e cognitivos: evidência em construção57

4.11 Risco cardiovascular e interação com antiagregantes59

4.12 Impacto clínico em populações especiais61

4.13 Síntese aplicada de risco-benefício para tomada de decisão62

5 ATUAÇÃO DO FARMACÊUTICO64

5.1 Orientação ao paciente64

5.2 Uso racional de medicamentos66

5.3 Revisão terapêutica e farmacovigilância68

5.4 Consulta farmacêutica estruturada para usuários de IBPs70

5.5 Educação em saúde com linguagem humanizada72

5.6 Integração multiprofissional e protocolos institucionais74

5.7 Indicadores de desempenho em programas de desprescrição76

6 ESTRATÉGIAS PARA QUALIFICAR A ASSISTÊNCIA78

6.1 Organização do cuidado na atenção primária78

6.2 Transição do cuidado hospitalar para o ambulatório80

6.3 Tecnologia da informação e apoio à decisão clínica82

6.4 Capacitação profissional contínua84

6.5 Segurança do paciente e cultura de melhoria86

6.6 Proposta de plano operativo para serviços de saúde88

6.7 Síntese estratégica90

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS92

8 REFERÊNCIAS95

1 INTRODUÇÃO

A farmacoterapia dos distúrbios ácido-pépticos passou por transformação significativa nas últimas décadas com a incorporação dos inibidores da bomba de prótons (IBPs) como estratégia de primeira linha para o controle de sintomas, cicatrização de mucosa e prevenção de complicações gastrointestinais. Fármacos como omeprazol, pantoprazol, lansoprazol, esomeprazol e rabeprazol tornaram-se amplamente utilizados não apenas em ambientes hospitalares e ambulatoriais especializados, mas também na atenção primária e, de forma crescente, no contexto da automedicação. Esse processo trouxe ganhos clínicos inegáveis para pacientes com doença do refluxo gastroesofágico, esofagite erosiva, úlcera péptica e necessidade de gastroproteção em situações específicas. Entretanto, o próprio sucesso terapêutico contribuiu para a percepção social de que os IBPs são medicamentos de baixo risco em qualquer circunstância, o que favoreceu sua manutenção por períodos muito superiores ao recomendado.

No cenário brasileiro, a alta disponibilidade de IBPs em redes pública e privada, associada à familiaridade de prescritores e usuários com essa classe, criou um ambiente no qual a continuidade do tratamento muitas vezes ocorre por inércia clínica. Em inúmeros casos, o fármaco é iniciado em momento de sintomatologia aguda, com indicação adequada, mas permanece por meses ou anos sem revisão formal da necessidade terapêutica, da dose mínima eficaz e de metas de suspensão. Essa dinâmica é potencializada por fatores como dificuldade de acesso a consultas de acompanhamento, fragmentação entre níveis de atenção, prontuários incompletos, receio de recidiva dos sintomas e desconhecimento sobre estratégias seguras de desprescrição. Consequentemente, pacientes com indicação originalmente transitória passam a integrar o grupo de usuários crônicos, com exposição acumulada que pode alterar o equilíbrio entre benefícios e riscos.

Embora os IBPs sejam, em termos gerais, medicamentos seguros quando bem indicados, a literatura científica recente tem discutido associações entre uso prolongado e desfechos adversos como infecção por Clostridioides difficile, pneumonia comunitária em subgrupos específicos, fraturas osteoporóticas, hipomagnesemia, deficiência de vitamina B12, deficiência de ferro, nefrite intersticial aguda e possível progressão para doença renal crônica. Parte dessas associações deriva de estudos observacionais suscetíveis a confundimento residual, o que impõe cautela na interpretação causal. Ainda assim, a recorrência desses achados em diferentes coortes e a plausibilidade biológica de alguns mecanismos reforçam a necessidade de monitoramento clínico, especialmente em pacientes mais vulneráveis. O debate contemporâneo, portanto, não se limita a defender ou condenar a classe farmacológica, mas a qualificar seu uso de forma proporcional à indicação e ao risco individual.

Nesse contexto, o problema de pesquisa que orienta este trabalho pode ser formulado da seguinte maneira: de que modo o uso prolongado de IBPs, quando não sustentado por indicação clínica robusta e revisão periódica, contribui para riscos evitáveis à saúde, e como a atuação farmacêutica pode reduzir tais riscos no cotidiano assistencial? A relevância da questão reside no impacto epidemiológico e econômico da prescrição crônica, no potencial de eventos adversos em populações expostas por longo prazo e na necessidade de decisões terapêuticas compartilhadas entre profissionais e pacientes. Em cursos da área da saúde, particularmente em Farmácia, compreender as nuances dessa discussão é essencial para fortalecer práticas de cuidado centradas no uso racional de medicamentos.

A justificativa deste estudo apoia-se em três dimensões complementares. A primeira é clínica: usuários de IBPs frequentemente apresentam multimorbidades, utilizam polifarmácia e pertencem a faixas etárias nas quais pequenos desequilíbrios nutricionais, hidroeletrolíticos ou renais podem gerar repercussões significativas. A segunda é sanitária: o uso não reavaliado de medicamentos de alta prevalência amplia custos diretos e indiretos para sistemas de saúde, além de potencialmente aumentar consultas, exames e internações decorrentes de eventos adversos evitáveis. A terceira é formativa e profissional: o farmacêutico ocupa posição estratégica para identificar prescrições prolongadas sem justificativa atual, promover reconciliação medicamentosa, orientar adesão terapêutica qualificada e coordenar intervenções de desprescrição em diálogo com a equipe multiprofissional.

Diante desse panorama, o objetivo geral deste trabalho é analisar criticamente o uso prolongado de inibidores da bomba de prótons e seus riscos associados à saúde, discutindo evidências científicas, limitações metodológicas dos estudos disponíveis e possibilidades concretas de intervenção farmacêutica para qualificar o cuidado. Como objetivos específicos, busca-se: apresentar os fundamentos farmacológicos dos IBPs e suas indicações clínicas; examinar os contextos em que o uso prolongado é apropriado e os cenários de uso irracional; discutir os principais riscos adversos descritos na literatura, diferenciando associações de causalidade bem estabelecida; e analisar o papel do farmacêutico em educação em saúde, revisão terapêutica, farmacovigilância e implementação de estratégias de desprescrição.

Metodologicamente, este estudo caracteriza-se como revisão bibliográfica de abordagem qualitativa, com análise descritiva e interpretativa de publicações científicas relevantes para o tema. Foram privilegiadas diretrizes de sociedades médicas e farmacêuticas, revisões sistemáticas, meta-análises e estudos observacionais de boa qualidade, além de documentos institucionais de referência para segurança do paciente e uso racional de medicamentos. A seleção das fontes buscou contemplar diferentes desenhos de estudo, justamente para ampliar a compreensão dos níveis de evidência disponíveis e das controvérsias persistentes. Em vez de assumir conclusões absolutas, adotou-se perspectiva crítica, valorizando contexto clínico, risco basal dos pacientes e viabilidade de intervenções no mundo real.

A estrutura do trabalho foi organizada de modo a conduzir progressivamente o leitor da base conceitual à aplicação prática. Após esta introdução, o segundo capítulo aborda os IBPs quanto a conceito, principais moléculas, farmacodinâmica e indicações. O terceiro capítulo discute especificamente o uso prolongado, distinguindo situações em que ele se mostra necessário daquelas em que representa perpetuação indevida de conduta inicial. O quarto capítulo aprofunda os riscos associados à saúde, com análise de desfechos clínicos frequentemente debatidos e apreciação crítica da força das evidências. O quinto capítulo concentra-se na atuação do farmacêutico, destacando ferramentas de cuidado para prevenção de danos e promoção de terapias mais seguras. Por fim, apresentam-se as considerações finais e as referências, consolidando os achados e apontando caminhos para prática e pesquisa.

Em síntese, discutir o uso prolongado de IBPs não significa deslegitimar uma classe terapêutica de grande utilidade, mas enfrentar um problema clássico da farmacoterapia moderna: a transição de medicamentos eficazes para usos contínuos sem supervisão adequada. A qualidade do cuidado depende de equilíbrio entre benefício clínico, vigilância de riscos e revisão periódica da necessidade de manutenção. Sob essa ótica, o tema ultrapassa uma análise estritamente farmacológica e alcança dimensões éticas, organizacionais e educacionais, nas quais o farmacêutico pode atuar como agente de integração entre prescrição, monitoramento e segurança do paciente.

2 INIBIDORES DA BOMBA DE PRÓTONS

2.1 Conceito e principais fármacos

Os inibidores da bomba de prótons constituem uma classe de fármacos antissecretores cujo alvo terapêutico principal é a enzima H+/K+-ATPase, localizada na membrana apical das células parietais gástricas. Ao inibirem de forma intensa e prolongada o estágio final da secreção ácida, os IBPs reduziram substancialmente a recorrência de sintomas e complicações de doenças relacionadas ao ácido gástrico, superando em potência os antagonistas de receptores H2 em diversas indicações clínicas. A principal característica que explica seu desempenho é a inativação funcional da bomba de prótons, mecanismo que promove supressão sustentada da acidez intragástrica e favorece cicatrização tecidual em ambiente menos agressivo.

Entre os fármacos mais utilizados, destacam-se omeprazol, esomeprazol, lansoprazol, dexlansoprazol, pantoprazol e rabeprazol. Embora compartilhem mecanismo de ação, existem diferenças farmacocinéticas relevantes entre moléculas, sobretudo em relação ao metabolismo hepático, interação com enzimas do citocromo P450 e perfil de formulação. O omeprazol, primeiro representante amplamente difundido, permanece de alta disponibilidade e baixo custo em muitos sistemas de saúde. O esomeprazol, isômero S do omeprazol, apresenta em alguns contextos variabilidade menor de exposição plasmática. O pantoprazol é frequentemente preferido quando se busca menor potencial de interação com clopidogrel, embora a interpretação desse aspecto deva considerar risco cardiovascular basal e evidências clínicas globais.

A escolha entre IBPs nem sempre depende de superioridade clínica absoluta, sendo comum que fatores como custo, padronização institucional, adesão do paciente e resposta individual orientem a decisão terapêutica. Na prática, diferenças de eficácia entre moléculas tendem a ser discretas quando utilizadas em doses equipotentes para indicações convencionais, mas podem ganhar relevância em cenários de doença refratária, necessidade de controle noturno de sintomas ou variabilidade metabólica individual. Em contexto de atenção farmacêutica, compreender essas nuances é essencial para evitar substituições inadequadas e para orientar pacientes que, muitas vezes, interpretam mudanças de marca ou molécula como perda automática de eficácia.

2.2 Mecanismo de ação

Os IBPs são pró-fármacos lipofílicos, geralmente administrados em formulações gastrorresistentes para impedir degradação no pH ácido do estômago. Após absorção intestinal e distribuição sistêmica, concentram-se nos canalículos secretores ácidos das células parietais, onde são protonados e convertidos em metabólitos ativos sulfenamídicos. Esses metabólitos reagem covalentemente com resíduos de cisteína da H+/K+-ATPase, resultando em inibição funcional prolongada da bomba. Como consequência, a recuperação da secreção depende da síntese de novas moléculas enzimáticas, processo que explica por que o efeito antissecretor pode exceder a meia-vida plasmática do fármaco.

A eficácia clínica dos IBPs está relacionada ao tempo de exposição das bombas ativas ao medicamento e, por isso, recomenda-se em geral administração antes das refeições principais. Esse aspecto, aparentemente simples, possui grande impacto na resposta terapêutica, pois uso irregular ou horários inadequados podem reduzir o benefício clínico e levar à falsa impressão de refratariedade. Em usuários crônicos, falhas de técnica de administração coexistem com escalonamento desnecessário de dose, reforçando a importância de orientação farmacêutica sobre adesão qualificada e timing correto de ingestão.

Além do controle de sintomas, a supressão ácida altera o microambiente gastrointestinal e influencia absorção de alguns nutrientes e medicamentos. Em pH menos ácido, processos dependentes de solubilização e ionização podem ser modificados, fenômeno associado a potenciais repercussões nutricionais e interações farmacológicas. Esse mesmo efeito fisiológico, benéfico no manejo de doença ácido-péptica, ajuda a explicar por que a manutenção prolongada sem indicação precisa pode produzir consequências indesejáveis. Assim, o mecanismo de ação dos IBPs deve ser compreendido em sua dupla face: altíssima efetividade terapêutica e capacidade de alterar homeostase gástrica de modo clinicamente relevante quando há exposição prolongada.

2.3 Principais indicações clínicas

As indicações clássicas dos IBPs incluem doença do refluxo gastroesofágico com sintomatologia frequente, esofagite erosiva confirmada, tratamento e prevenção de recidiva de úlcera péptica, erradicação de Helicobacter pylori em associação a antimicrobianos, prevenção de gastropatia por anti-inflamatórios não esteroidais em pacientes com fatores de risco e manejo de síndromes hipersecretoras, como a síndrome de Zollinger-Ellison. Em todas essas condições, o benefício clínico tende a ser elevado quando há adequada definição de dose, tempo de tratamento e critérios de resposta.

Em ambiente hospitalar, os IBPs também são utilizados para profilaxia de sangramento gastrointestinal em pacientes críticos selecionados, sobretudo quando há ventilação mecânica prolongada ou coagulopatia. Entretanto, a extensão automática dessa profilaxia para pacientes de baixo risco, seguida de manutenção após alta sem reavaliação, figura entre os principais gatilhos de uso crônico indevido. Esse ponto ilustra como decisões legítimas em contexto agudo podem gerar prescrição prolongada sem necessidade no cuidado ambulatorial.

Diretrizes contemporâneas recomendam que a terapia com IBP seja periodicamente revisada, com tentativa de redução de dose, uso sob demanda ou suspensão quando possível em pacientes sem indicação de manutenção contínua. Por outro lado, há grupos que realmente necessitam de tratamento de longo prazo, como portadores de esofagite erosiva grave recorrente, estenose péptica, Barrett sintomático com recidiva ao retirar medicação e usuários crônicos de anti-inflamatórios com alto risco gastrointestinal sem alternativa terapêutica viável. A racionalidade clínica, portanto, não está em reduzir indiscriminadamente o uso, mas em individualizar condutas com base em risco-benefício.

No âmbito da Farmácia clínica, a identificação da indicação atual é etapa central da revisão farmacoterapêutica. Perguntas simples, como "por que este IBP foi iniciado?" e "qual evento clínico justificou a continuidade?", frequentemente revelam prescrições sem propósito claro. Ao mesmo tempo, há casos nos quais a suspensão precipitada gera piora importante da qualidade de vida. Essa ambiguidade reforça a necessidade de avaliação contextualizada, comunicação interprofissional e participação ativa do paciente nas decisões sobre continuidade, redução ou desprescrição.

2.4 Farmacocinética, metabolismo e variabilidade interindividual

Embora os IBPs compartilhem o mesmo alvo farmacológico, o comportamento farmacocinético varia entre moléculas e entre pacientes. A absorção depende de formulações gastrorresistentes íntegras, motivo pelo qual comprimidos não devem ser partidos ou mastigados sem orientação. Após absorção, o metabolismo hepático ocorre principalmente por isoenzimas como CYP2C19 e CYP3A4, com impacto direto sobre exposição plasmática, duração do efeito e probabilidade de resposta clínica adequada.

Polimorfismos genéticos de CYP2C19 ajudam a explicar por que alguns indivíduos apresentam controle sintomático insuficiente com doses usuais, enquanto outros evoluem com supressão ácida mais intensa. Em termos práticos, esse conhecimento reforça a necessidade de avaliar resposta clínica real antes de rotular falha terapêutica ou escalar dose de forma automática. Em pacientes com sintomas persistentes, é fundamental revisar adesão, horário de administração, gatilhos alimentares e diagnóstico diferencial, evitando escalonamentos empíricos sem raciocínio clínico.

Outro aspecto relevante é a influência de comorbidades hepáticas, idade avançada e uso concomitante de múltiplos fármacos. Em idosos frágeis, pequenas variações farmacocinéticas podem se traduzir em maior suscetibilidade a eventos adversos no uso prolongado. Isso não significa contraindicar a classe, mas ajustar expectativa terapêutica e monitoramento conforme o perfil de risco individual.

2.5 Interações medicamentosas de interesse clínico

Interações envolvendo IBPs podem ocorrer por alterações de pH gástrico, por competição metabólica e por interferência na biodisponibilidade de outros fármacos. Medicamentos com absorção dependente de meio ácido, como alguns antifúngicos azólicos, podem apresentar redução de eficácia quando administrados concomitantemente em esquemas sem planejamento. Da mesma forma, formulações de ferro oral e certos antirretrovirais exigem avaliação individualizada para evitar perda de efetividade terapêutica.

A interação com antiagregantes plaquetários, especialmente clopidogrel, é tema recorrente na prática clínica. Embora o impacto clínico global permaneça objeto de debate, recomenda-se avaliar risco cardiovascular e gastrointestinal em conjunto, escolhendo molécula, dose e estratégia de proteção gástrica de forma integrada. A decisão não deve ser baseada em regra rígida, mas em contexto clínico, histórico de sangramento, necessidade de dupla antiagregação e alternativas disponíveis.

No cotidiano da farmácia clínica, mapear interações potenciais exige reconciliação medicamentosa ativa, com foco em prescrição, automedicação, fitoterápicos e suplementos. Muitos eventos atribuídos genericamente ao "uso prolongado" são, na realidade, consequência de combinações terapêuticas mal coordenadas, lacuna que pode ser reduzida por revisão periódica e comunicação efetiva entre equipe e paciente.

2.6 Critérios de qualidade para prescrição inicial

Uma prescrição inicial de qualidade para IBPs deve explicitar indicação clínica, dose, horário, duração prevista e plano de reavaliação. Em vez de receituários abertos por tempo indeterminado, recomenda-se registrar objetivo terapêutico mensurável, como remissão de pirose, cicatrização endoscópica ou prevenção de sangramento em paciente de alto risco. Esse detalhamento reduz inércia clínica e facilita decisões futuras de redução ou suspensão.

Também é recomendável pactuar, desde o início, expectativas realistas sobre evolução dos sintomas e sobre possíveis dificuldades na retirada. Quando o paciente entende que o medicamento pode ter duração limitada, a adesão ao plano terapêutico tende a ser melhor e o medo de desprescrição diminui. A orientação antecipada transforma a revisão periódica em etapa natural do cuidado, e não em mensagem de insegurança clínica.

Em síntese, o capítulo farmacológico dos IBPs não se esgota no mecanismo de ação. A qualidade da prescrição depende da capacidade de integrar farmacologia, contexto clínico e planejamento longitudinal, preservando benefício terapêutico com menor exposição desnecessária.

3 USO PROLONGADO DOS IBPs

3.1 Quando o uso prolongado é indicado

A discussão sobre permanência de IBPs em longo prazo precisa iniciar por um princípio técnico: existem situações em que a manutenção é clínica e eticamente adequada. Pacientes com esofagite erosiva grave (classes C e D de Los Angeles), histórico de sangramento ulceroso recorrente associado a anti-inflamatórios de uso contínuo, hipersecreção gástrica patológica e alguns casos de Barrett com sintomas persistentes podem se beneficiar de tratamento de manutenção estruturado. Nesses cenários, interromper o fármaco apenas por meta administrativa de redução de consumo pode representar aumento de risco e piora de desfechos.

Mesmo quando a indicação de longo prazo é legítima, a condução deve seguir parâmetros de qualidade: utilização da menor dose efetiva, revisão periódica da resposta clínica, investigação de sinais de toxicidade e reavaliação de comorbidades que alterem o perfil de risco. Um erro frequente é confundir "necessidade de manutenção" com "imutabilidade de dose". Na prática, muitos pacientes podem permanecer protegidos com redução gradual da intensidade terapêutica, desde que o processo seja monitorado e compartilhado com equipe e usuário.

3.2 Uso irracional e automedicação

O uso irracional de IBPs manifesta-se de formas distintas: prescrição sem indicação clara, manutenção por inércia após resolução do quadro inicial, associação com outros fármacos sem critério de risco gastrointestinal e automedicação contínua para alívio inespecífico de desconforto abdominal. Em muitos serviços, a recondução automática de receitas ocorre sem revisão diagnóstica, sobretudo quando o paciente relata melhora subjetiva com o medicamento. A ausência de registro objetivo da indicação original dificulta a decisão de suspensão e favorece perpetuação terapêutica.

A automedicação merece atenção especial porque envolve percepção cultural de segurança absoluta. Usuários costumam considerar o IBP um "protetor do estômago" aplicável a qualquer dor epigástrica, combinação medicamentosa ou alimentação irregular. Esse imaginário reduz a procura por avaliação clínica e pode mascarar sintomas que exigiriam investigação, como perda de peso involuntária, disfagia progressiva ou anemia. Ao transformar o IBP em solução universal, adia-se o diagnóstico de condições relevantes e amplia-se exposição desnecessária ao fármaco.

Do ponto de vista sanitário, o uso irracional está associado a gastos evitáveis com aquisição contínua, consultas para efeitos adversos, exames laboratoriais de monitoramento e internações potencialmente relacionadas a eventos clínicos preveníveis. Embora cada episódio individual pareça de pequeno impacto, a soma em escala populacional é expressiva, especialmente em sistemas com grande prevalência de prescrição crônica. Por isso, intervenções de educação em saúde e protocolos de revisão periódica devem ser compreendidas não apenas como ações clínicas, mas como estratégia de sustentabilidade do cuidado.

3.3 Dificuldades na suspensão do tratamento

A descontinuação de IBPs, mesmo quando indicada, costuma enfrentar barreiras fisiológicas, comportamentais e organizacionais. Uma das principais é o fenômeno de hipersecreção ácida rebote após retirada abrupta, que pode gerar pirose e desconforto transitórios, levando paciente e profissional a interpretar o retorno de sintomas como prova de doença ativa permanente. Sem orientação prévia, esse ciclo retroalimenta reintroduções repetidas e consolida dependência terapêutica percebida.

Também há barreiras relacionadas à comunicação clínica. Em consultas de curta duração, a revisão de medicamentos de uso crônico compete com múltiplas demandas, e a manutenção da prescrição tende a ser mais rápida do que negociar plano de redução gradual. Além disso, quando o cuidado é fragmentado entre diferentes profissionais sem prontuário integrado, nenhum deles se sente plenamente responsável por conduzir desprescrição. O resultado é a continuidade silenciosa do tratamento, mesmo na ausência de justificativa atual.

Estratégias com melhor desempenho incluem redução progressiva de dose, transição para uso em dias alternados, adoção temporária de antiácidos ou antagonistas H2 em períodos de retirada e reforço de medidas não farmacológicas para controle de sintomas, como ajuste alimentar, redução de refeições noturnas volumosas e elevação de cabeceira. Mais importante que escolher um único protocolo é estabelecer acompanhamento ativo, com metas realistas e possibilidade de reavaliação precoce em caso de desconforto.

Nesse processo, a participação do farmacêutico é decisiva para traduzir orientações técnicas em linguagem acessível, desfazer crenças de risco exagerado sobre a suspensão e monitorar sinais que demandem reencaminhamento médico. A desprescrição bem-sucedida depende menos de ato isolado e mais de percurso estruturado de cuidado, no qual paciente compreende por que reduzir, como reduzir e quando procurar suporte.

3.4 Perfis de pacientes com maior risco de manutenção indevida

Certos perfis concentram maior probabilidade de uso prolongado sem reavaliação formal. Entre eles, destacam-se idosos com múltiplos prescritores, pacientes com histórico de internação recente, usuários de anti-inflamatórios por dor crônica e pessoas com dificuldade de acesso contínuo à atenção primária. Nesses grupos, a prescrição tende a ser reproduzida em diferentes pontos da rede sem validação da indicação original.

Pacientes com ansiedade relacionada a sintomas digestivos também representam subgrupo sensível, pois qualquer desconforto eventual pode ser interpretado como recaída grave, estimulando retomada precoce do IBP após tentativas de retirada. A escuta qualificada, associada a explicações simples sobre variabilidade sintomática e medidas de autocuidado, reduz reintroduções motivadas por medo.

3.5 Indicadores práticos para reavaliar necessidade de continuidade

A reavaliação periódica pode ser operacionalizada com perguntas-chave: há diagnóstico ativo que justifique manutenção diária? O paciente apresentou complicações prévias que exigem proteção contínua? Houve tentativa estruturada de reduzir dose no último ano? Existem efeitos adversos ou alterações laboratoriais que mudem o balanço benefício-risco? Essas perguntas, quando incorporadas ao acompanhamento, tornam a revisão terapêutica objetiva e reprodutível.

Como apoio à decisão, serviços podem adotar listas de verificação com critérios de manutenção, redução, uso sob demanda ou suspensão. Protocolos simples, bem divulgados e aplicados de forma multiprofissional reduzem variabilidade assistencial e aumentam segurança. O objetivo não é restringir acesso, mas garantir que cada prescrição prolongada possua justificativa clínica atual e documentação adequada.

3.6 Estratégias de desprescrição passo a passo

A desprescrição pode seguir um roteiro em cinco etapas: confirmação da indicação atual, estratificação de risco, escolha da estratégia de retirada, educação do paciente e seguimento programado. Para indivíduos com baixo risco de recaída, a redução da dose por duas a quatro semanas, seguida de uso em dias alternados e posterior suspensão, costuma ser bem tolerada. Em casos com sintomas recorrentes leves, o uso sob demanda pode representar alternativa intermediária antes da interrupção completa.

O manejo do período de transição deve incluir orientações sobre medidas comportamentais e plano de contingência para sintomas rebote. Antiácidos de resgate, antagonistas H2 noturnos por curto prazo e ajustes alimentares estratégicos ajudam a atravessar as primeiras semanas, fase em que a sensação de piora costuma ser mais intensa. A mensagem central ao paciente é que desconforto inicial não significa fracasso, mas adaptação fisiológica esperada.

Quando a retirada não é possível após tentativas bem conduzidas, a conduta adequada pode ser manter a menor dose eficaz, com revisão em intervalos definidos e monitoramento proporcional ao risco. O sucesso da desprescrição não deve ser medido apenas por suspensão total, mas pela capacidade de reduzir exposição desnecessária sem comprometer qualidade de vida.

3.7 Desafios éticos e comunicacionais no uso prolongado

O debate sobre uso prolongado de IBPs também envolve dimensão ética. Prescrever por inércia pode expor pacientes a riscos evitáveis, mas suspender sem suporte pode gerar sofrimento e perda de confiança. A decisão clínica responsável exige comunicação transparente, discussão de incertezas e definição conjunta de metas terapêuticas.

Em ambientes de alta demanda assistencial, protocolos centrados no paciente e linguagem acessível são ferramentas de humanização. Explicar motivos da continuidade, da redução ou da suspensão fortalece autonomia do usuário e melhora adesão ao plano acordado. Assim, racionalidade terapêutica e cuidado humanizado não competem entre si; ao contrário, são dimensões complementares da boa prática.

4 RISCOS ASSOCIADOS À SAÚDE

4.1 Infecções intestinais

A associação entre supressão ácida e infecções intestinais figura entre os desfechos mais consistentes na literatura sobre segurança dos IBPs. O ácido gástrico atua como barreira fisiológica contra microrganismos ingeridos; sua redução sustentada pode facilitar sobrevivência bacteriana e alterar a composição da microbiota intestinal. Estudos observacionais e meta-análises apontam aumento de risco para infecção por Clostridioides difficile, especialmente em pacientes hospitalizados, idosos e usuários concomitantes de antibióticos. Embora a magnitude do risco varie entre estudos, a recorrência do sinal em diferentes populações justifica vigilância clínica ativa.

Em termos práticos, não se recomenda interromper IBP de forma indiscriminada por medo desse evento, mas revisar cuidadosamente sua indicação quando o paciente apresenta histórico de diarreia associada a antibiótico, internações repetidas ou comorbidades que elevem vulnerabilidade infecciosa. Educação do usuário sobre sinais de alarme, como diarreia persistente, febre e desidratação, é componente essencial da prevenção de desfechos graves.

4.2 Fraturas e alterações ósseas

A possível relação entre uso crônico de IBPs e risco de fraturas osteoporóticas tem sido amplamente discutida. Hipóteses mecanísticas incluem redução da absorção de cálcio em ambiente menos ácido, alterações hormonais secundárias e impacto indireto por condições clínicas coexistentes. Estudos de coorte sugerem incremento modesto de risco de fraturas de quadril, punho e coluna em usuários de longa duração, particularmente em idosos. Contudo, a interpretação exige cautela, pois fatores como fragilidade basal, sedentarismo, uso de corticosteroides e baixa ingestão de cálcio podem atuar como confundidores importantes.

Mesmo sem consenso absoluto sobre causalidade forte, é prudente adotar medidas preventivas em grupos de maior risco: revisão periódica da necessidade de IBP, estímulo à atividade física compatível com condição clínica, adequação de ingestão de cálcio e vitamina D e avaliação de saúde óssea quando indicado. A abordagem integrada evita decisões simplistas e permite que proteção gástrica e proteção osteometabólica coexistam de forma equilibrada.

4.3 Hipomagnesemia e alterações nutricionais

A hipomagnesemia associada a IBPs, embora incomum, é evento adverso reconhecido e potencialmente grave, principalmente em uso prolongado. A redução da absorção intestinal de magnésio pode manifestar-se com fraqueza, cãibras, tremores, arritmias e convulsões em casos extremos. O risco aumenta quando há uso concomitante de diuréticos, doença renal prévia, perdas gastrointestinais crônicas ou estado nutricional comprometido. Por esse motivo, diretrizes sugerem monitorização laboratorial em pacientes de maior vulnerabilidade clínica, em vez de rastreamento universal indiscriminado.

Além do magnésio, a hipocloridria sustentada pode influenciar biodisponibilidade de micronutrientes, sobretudo em indivíduos com dieta restrita, idosos e portadores de comorbidades que já limitam absorção. A avaliação nutricional periódica, articulada entre equipe médica, farmacêutica e nutricional, é estratégia valiosa para evitar que deficiências subclínicas evoluam para manifestações clínicas mais relevantes.

4.4 Deficiência de vitamina B12 e ferro

A absorção de vitamina B12 proveniente de alimentos depende de etapas que envolvem ambiente gástrico ácido para liberação da vitamina ligada a proteínas. Em uso crônico de IBP, esse processo pode ser parcialmente comprometido, aumentando probabilidade de deficiência em exposição prolongada, sobretudo em idosos, vegetarianos estritos sem suplementação e pacientes com gastrite atrófica. Clinicamente, deficiência de B12 pode se apresentar com anemia megaloblástica, neuropatia periférica, alterações cognitivas e fadiga de instalação insidiosa.

O ferro não heme também pode ter absorção reduzida em pH mais elevado, o que, em determinados contextos, contribui para anemia ferropriva. Entretanto, assim como em outros desfechos associados aos IBPs, a força de associação varia entre estudos e depende do perfil basal do paciente. Em vez de atribuir toda anemia ao uso do medicamento, recomenda-se investigação etiológica abrangente, preservando raciocínio clínico amplo. O papel do farmacêutico inclui identificar sinais de alerta, estimular adesão a exames solicitados e revisar interações que possam agravar deficiência nutricional.

4.5 Possíveis alterações renais

Nos últimos anos, estudos observacionais chamaram atenção para possível vínculo entre uso de IBPs e eventos renais, incluindo nefrite intersticial aguda, lesão renal aguda e progressão para doença renal crônica em subgrupos. A nefrite intersticial aguda, embora rara, possui plausibilidade imunológica e já foi descrita em relatos e séries clínicas com melhora parcial após suspensão precoce do fármaco. O desafio reside no diagnóstico oportuno, uma vez que manifestações iniciais podem ser inespecíficas e confundidas com evolução de comorbidades preexistentes.

Quanto à associação com doença renal crônica, parte da incerteza decorre da natureza não randomizada de grande parte das evidências. Pacientes que usam IBP por longo prazo tendem a apresentar maior carga de doença e maior idade, elementos que, por si só, elevam risco renal. Ainda assim, diante de sinal epidemiológico repetido, é razoável adotar postura preventiva: manter indicação atualizada, evitar doses excessivas, monitorar função renal quando clinicamente indicado e investigar sintomas ou alterações laboratoriais sem atraso.

4.6 Refluxo rebote e dependência terapêutica

O refluxo rebote representa uma das causas mais importantes de manutenção indevida de IBPs. Após semanas ou meses de supressão ácida intensa, a retirada abrupta pode desencadear aumento transitório da secreção de ácido, com pirose e regurgitação que o paciente interpreta como piora estrutural da doença. Sem orientação adequada, esse fenômeno leva à retomada imediata do medicamento e cria ciclo de uso contínuo por medo de sintomas.

Esse padrão não configura dependência farmacológica no sentido clássico de substâncias psicoativas, mas estabelece dependência terapêutica comportamental: o usuário passa a considerar impossível viver sem o fármaco, mesmo quando não há lesão orgânica ativa documentada. Estratégias de retirada gradual, combinadas a educação sobre a transitoriedade dos sintomas rebote, demonstram melhor taxa de sucesso do que suspensão abrupta sem acompanhamento.

4.7 O que está comprovado e o que ainda é associação

A interpretação crítica das evidências sobre segurança dos IBPs exige distinguir desfechos com suporte robusto daqueles em que persistem incertezas metodológicas. Há razoável consenso sobre aumento de risco de infecção por C. difficile em contextos específicos e sobre ocorrência rara, porém real, de hipomagnesemia e nefrite intersticial aguda. Outros desfechos, como fraturas, deficiência de micronutrientes e progressão renal crônica, apresentam associação plausível, mas com heterogeneidade de resultados e potencial confundimento residual. Portanto, afirmar causalidade universal para todos os usuários seria cientificamente inadequado.

O ponto central para a prática é reconhecer que incerteza não equivale à ausência de risco. Em farmacoterapia, decisões devem considerar probabilidade de dano, gravidade potencial, vulnerabilidade individual e existência de alternativas. Assim, a conduta mais consistente com segurança do paciente não é demonizar os IBPs, mas evitar uso prolongado sem indicação atual, monitorar subgrupos de maior risco e promover desprescrição quando o balanço benefício-risco se torna desfavorável. Essa posição intermediária, fundamentada em evidência e prudência clínica, é a que melhor responde à complexidade do tema.

4.8 Pneumonia e infecções respiratórias: interpretação contextual

A possível associação entre IBPs e pneumonia adquirida na comunidade aparece com frequência em estudos observacionais, especialmente no período inicial após introdução do tratamento. Hipóteses incluem microaspiração de conteúdo colonizado e mudanças na ecologia do trato digestivo superior. Entretanto, muitos trabalhos sofrem influência de viés de indicação, já que pacientes mais doentes ou com maior carga de comorbidades tendem a receber IBP com mais frequência.

Na prática clínica, o sinal epidemiológico não justifica suspensão indiscriminada, mas reforça cautela em grupos vulneráveis, como idosos institucionalizados, portadores de doença pulmonar crônica avançada e pacientes com histórico de infecção respiratória recorrente. A conduta mais prudente é manter indicação atualizada e evitar manutenção sem necessidade objetiva.

4.9 Microbiota intestinal e repercussões sistêmicas

A redução sustentada da acidez gástrica pode modificar a composição da microbiota intestinal, com impacto potencial sobre funções metabólicas, imunológicas e barreira mucosa. Embora a tradução clínica dessas alterações ainda esteja em evolução, o tema ganhou relevância por sugerir que efeitos dos IBPs não se restringem ao estômago e ao esôfago.

Estudos de metagenômica apontam mudanças na diversidade bacteriana em usuários crônicos, mas ainda há heterogeneidade metodológica quanto a desenho, tempo de exposição e controle de dieta, antibióticos e comorbidades. Portanto, a interpretação deve ser equilibrada: há plausibilidade biológica, porém não se pode inferir, de forma automática, causalidade para todos os desfechos sistêmicos propostos.

4.10 Eventos neurológicos e cognitivos: evidência em construção

Investigações sobre potencial relação entre IBPs e declínio cognitivo ganharam visibilidade em anos recentes. Parte dos estudos iniciais sugeriu associação estatística com demência, porém análises subsequentes mais robustas apresentaram resultados conflitantes, com redução de efeito após ajuste para idade, escolaridade, carga de doença e polifarmácia.

Diante desse cenário, recomenda-se evitar mensagens alarmistas. Para pacientes e cuidadores, a orientação mais útil é enfatizar que, até o momento, não há base sólida para concluir causalidade direta ampla. Ainda assim, em idosos frágeis, toda medicação de uso crônico deve ser periodicamente reavaliada, inclusive os IBPs, por princípio geral de segurança farmacoterapêutica.

4.11 Risco cardiovascular e interação com antiagregantes

A discussão cardiovascular relacionada aos IBPs concentra-se principalmente na possível redução da ativação do clopidogrel em algumas combinações. Em termos populacionais, o impacto clínico absoluto tende a ser modesto e dependente do perfil de risco trombótico e hemorrágico. A abordagem centrada no paciente, com escolha criteriosa da molécula e monitoramento clínico, oferece melhor equilíbrio entre proteção gástrica e segurança cardiovascular.

Em indivíduos com histórico de sangramento digestivo e necessidade de antiagregação, retirar IBP sem planejamento pode ser mais danoso do que manter terapia ajustada. Por isso, decisões devem envolver avaliação multiprofissional e, quando possível, protocolos institucionais para harmonizar condutas entre cardiologia, gastroenterologia e farmácia clínica.

4.12 Impacto clínico em populações especiais

Gestantes, pacientes com doença hepática avançada, pessoas com insuficiência renal e indivíduos em cuidados paliativos demandam avaliação individualizada quanto ao uso prolongado de IBPs. Nessas populações, o significado clínico de pequenos eventos adversos pode ser maior devido à reserva fisiológica reduzida e à coexistência de tratamentos complexos.

A conduta recomendada é adaptar monitoramento à vulnerabilidade do paciente, evitando tanto omissão terapêutica quanto excesso de intervenção. Em outras palavras, segurança não se alcança apenas reduzindo medicamentos, mas ajustando decisões ao contexto clínico real.

4.13 Síntese aplicada de risco-benefício para tomada de decisão

A avaliação final sobre continuidade de IBP em longo prazo deve integrar quatro eixos: indicação atual, intensidade do benefício esperado, probabilidade de dano no perfil individual e disponibilidade de alternativas seguras. Esse modelo favorece decisões explícitas, documentáveis e passíveis de revisão periódica.

Quando o benefício é alto e o risco é manejável, manter tratamento é racional. Quando o benefício é incerto e o risco cumulativo cresce, a desprescrição gradual torna-se estratégia preferencial. Entre esses extremos, existe ampla zona cinzenta em que monitoramento clínico, comunicação clara e participação ativa do paciente determinam a qualidade da decisão.

5 ATUAÇÃO DO FARMACÊUTICO

5.1 Orientação ao paciente

A atuação do farmacêutico no cuidado de usuários de IBPs inicia-se pela qualificação da informação compartilhada com o paciente. Em muitos casos, a continuidade prolongada decorre menos de decisão clínica formal e mais de interpretações parciais sobre finalidade do medicamento, forma correta de uso e riscos associados. Ao orientar de maneira clara, o farmacêutico reduz equívocos comuns, como uso em horários inadequados, duplicidade terapêutica entre produtos diferentes e autoperpetuação do tratamento por medo de sintomas transitórios.

A comunicação efetiva deve ser personalizada: pacientes idosos, com baixa escolaridade em saúde ou com múltiplas comorbidades demandam linguagem simples, exemplos concretos e confirmação de entendimento. Estratégias como "ensino de volta" (quando o paciente repete com suas palavras a orientação recebida) são úteis para verificar compreensão real. Além disso, é fundamental explicar diferença entre controle sintomático e necessidade de manutenção contínua, reforçando que melhora clínica pode representar oportunidade de redução de dose e não obrigatoriamente motivo para uso indefinido.

5.2 Uso racional de medicamentos

O uso racional de IBPs depende da tríade indicação, dose e tempo. No cotidiano da assistência farmacêutica, isso implica validar a presença de justificativa clínica atual, identificar se há sobretratamento e propor ajustes com base em protocolos institucionais e diretrizes vigentes. Pacientes em polifarmácia merecem atenção redobrada, pois interações farmacodinâmicas e farmacocinéticas podem alterar segurança global da terapêutica, mesmo quando cada prescrição isoladamente parece adequada.

Ferramentas de revisão sistemática da prescrição, aplicadas em consultas farmacêuticas ou visitas clínicas, auxiliam na identificação de problemas relacionados a medicamentos. Entre os achados frequentes estão dose acima da necessária, ausência de indicação documentada e manutenção após alta hospitalar sem plano de reavaliação. A intervenção farmacêutica, quando registrada e pactuada com equipe multiprofissional, aumenta a chance de desprescrição segura e reduz reintroduções evitáveis.

Também integra o uso racional a valorização de medidas não farmacológicas para manejo de sintomas dispépticos e de refluxo, como fracionamento alimentar, redução de álcool e tabaco, controle ponderal e ajustes de hábitos noturnos. Essas medidas não substituem tratamento quando há indicação firme, mas ampliam chance de redução de dose e menor dependência terapêutica no longo prazo.

5.3 Revisão terapêutica e farmacovigilância

A revisão terapêutica estruturada é uma das contribuições mais relevantes do farmacêutico para segurança no uso de IBPs. Esse processo envolve levantamento completo da farmacoterapia, checagem da indicação de cada medicamento, avaliação de efetividade, identificação de reações adversas e definição de plano de acompanhamento. Em relação aos IBPs, recomenda-se incluir perguntas sobre tempo de uso, tentativa prévia de redução, ocorrência de sintomas rebote, presença de diarreia recorrente, alterações laboratoriais prévias e fatores de risco para deficiência nutricional ou eventos ósseos.

A farmacovigilância, por sua vez, permite transformar observações clínicas do cotidiano em aprendizado coletivo para o serviço de saúde. Notificar suspeitas de eventos adversos, mesmo quando causalidade não está totalmente estabelecida, contribui para mapear padrões de risco e aprimorar protocolos. Em instituições com cultura de segurança consolidada, o farmacêutico atua como elo entre assistência direta e gestão da qualidade, convertendo dados de uso real em ações preventivas e educativas.

Do ponto de vista operacional, programas de desprescrição com participação farmacêutica apresentam melhores resultados quando incluem critérios explícitos de elegibilidade, material educativo padronizado, cronograma de seguimento e indicadores de resultado, como taxa de redução de dose, manutenção de controle sintomático, satisfação do paciente e incidência de reintrodução em curto prazo. Essas iniciativas demonstram que reduzir uso indevido não significa restringir acesso, mas aprimorar precisão terapêutica.

Em síntese, a atuação farmacêutica frente ao uso prolongado de IBPs articula dimensões clínica, educativa e de gestão do cuidado. Ao promover revisão contínua da necessidade terapêutica, apoiar decisões compartilhadas e monitorar segurança, o farmacêutico contribui diretamente para redução de danos evitáveis e para fortalecimento de uma cultura assistencial orientada por evidências. Esse protagonismo é particularmente relevante em sistemas de saúde com alta prevalência de prescrição crônica e recursos limitados, nos quais a qualidade do acompanhamento influencia tanto desfechos individuais quanto sustentabilidade coletiva do cuidado.

5.4 Consulta farmacêutica estruturada para usuários de IBPs

A consulta farmacêutica voltada ao uso prolongado de IBPs deve seguir roteiro padronizado e, ao mesmo tempo, flexível ao contexto do paciente. Recomenda-se iniciar com levantamento da história de uso, diagnóstico relacionado, padrão de sintomas, tentativas prévias de redução e percepção de risco. Em seguida, procede-se à avaliação da prescrição atual, da técnica de administração e da presença de possíveis reações adversas ou interações relevantes.

O plano de cuidado pode incluir metas de curto prazo (ajuste de horário, adesão correta, controle de sintomas) e metas de médio prazo (redução de dose, uso sob demanda ou suspensão com monitoramento). Registrar essas metas no prontuário e compartilhar com a equipe multiprofissional aumenta continuidade assistencial e evita reintroduções não planejadas.

5.5 Educação em saúde com linguagem humanizada

Tornar a comunicação mais humana significa reconhecer dúvidas, crenças e experiências prévias do paciente sem julgamento. Em vez de frases prescritivas, abordagens dialógicas favorecem adesão: explicar o porquê de cada etapa, antecipar desconfortos transitórios e oferecer canais de suporte em caso de piora. Essa postura reduz medo da desprescrição e fortalece confiança na equipe.

Materiais educativos curtos, com linguagem simples e exemplos práticos, podem complementar a consulta e melhorar retenção da informação. Para públicos com baixa literacia em saúde, recursos visuais e orientações por etapas tendem a ser mais efetivos do que textos extensos. O objetivo é garantir entendimento real, não apenas entrega formal de informação.

5.6 Integração multiprofissional e protocolos institucionais

Programas sustentáveis de revisão de IBPs dependem de alinhamento entre médicos, farmacêuticos, enfermagem e gestão clínica. Protocolos institucionais com critérios claros de indicação, manutenção e desprescrição reduzem variação de condutas e melhoram segurança do paciente ao longo da rede de cuidado.

Reuniões clínicas periódicas para discussão de casos complexos ajudam a resolver divergências terapêuticas e promovem aprendizagem coletiva. Nesses espaços, o farmacêutico contribui com análise técnica de risco medicamentoso, interpretação de interações e propostas de monitoramento, fortalecendo decisões compartilhadas baseadas em evidências.

5.7 Indicadores de desempenho em programas de desprescrição

Para avaliar efetividade das intervenções, serviços podem adotar indicadores como: proporção de pacientes com indicação documentada, taxa de redução de dose em seis meses, percentual de suspensões bem-sucedidas, incidência de retorno não programado por sintomas graves, e satisfação do paciente com o plano terapêutico.

O monitoramento desses indicadores permite ajustes contínuos e demonstra, com dados locais, que desprescrição bem conduzida é estratégia de qualidade assistencial. Mais do que reduzir número de prescrições, a meta é aumentar precisão terapêutica e segurança no uso de medicamentos ao longo do tempo.

6 ESTRATÉGIAS PARA QUALIFICAR A ASSISTÊNCIA

6.1 Organização do cuidado na atenção primária

A atenção primária representa o principal cenário para identificação de uso prolongado de IBPs sem indicação atual. Por concentrar acompanhamento longitudinal, esse nível assistencial permite revisar prescrições recorrentes, reconhecer padrões de automedicação e pactuar planos de redução com seguimento contínuo. Para que isso ocorra de forma consistente, é necessário incorporar a revisão farmacoterapêutica à rotina das equipes, e não tratá-la como ação eventual.

Fluxos de cuidado com responsabilidades definidas favorecem resultados melhores: o médico valida diagnóstico e necessidade clínica, o farmacêutico conduz avaliação detalhada de uso e riscos, a enfermagem reforça orientações e identifica sinais de alerta durante acompanhamento. Quando esses papéis são explícitos, reduz-se a fragmentação e aumenta-se a segurança na tomada de decisão.

6.2 Transição do cuidado hospitalar para o ambulatório

Grande parte das prescrições crônicas de IBP tem origem em internações, nas quais o medicamento foi iniciado por indicação temporária. Na ausência de reconciliação na alta, a prescrição é perpetuada no ambulatório sem reavaliação. Portanto, qualificar a transição do cuidado é medida estratégica para prevenir uso indevido em larga escala.

Recomenda-se que o resumo de alta contenha justificativa do IBP, prazo sugerido de uso e data de revisão. Esse registro orienta profissionais da atenção primária e reduz continuidade automática por falta de informação clínica. A participação farmacêutica na alta hospitalar, com reconciliação e educação do paciente, aumenta a efetividade desse processo.

6.3 Tecnologia da informação e apoio à decisão clínica

Sistemas eletrônicos podem contribuir de forma decisiva para uso racional de IBPs. Alertas inteligentes para prescrições sem indicação registrada, lembretes de revisão periódica e painéis de pacientes em uso prolongado ajudam equipes a priorizar casos para intervenção. Contudo, esses recursos devem ser calibrados para evitar excesso de alertas sem relevância, que tende a reduzir adesão dos profissionais.

Além dos alertas, indicadores automatizados facilitam monitoramento de desempenho e retroalimentam melhoria contínua. Com dados locais confiáveis, gestores conseguem identificar unidades com maior prevalência de uso crônico, direcionar capacitações e avaliar impacto de protocolos implementados.

6.4 Capacitação profissional contínua

A atualização periódica da equipe é componente central para sustentar boas práticas. Mudanças em diretrizes, novas evidências de segurança e estratégias de comunicação em desprescrição exigem educação permanente articulada à realidade do serviço. Capacitações curtas, baseadas em casos reais, costumam produzir maior adesão do que treinamentos exclusivamente teóricos.

A formação deve incluir não apenas conhecimento farmacológico, mas também habilidades de entrevista clínica, tomada de decisão compartilhada e registro qualificado no prontuário. Esses elementos ampliam capacidade da equipe de transformar recomendação técnica em cuidado efetivo e humanizado.

6.5 Segurança do paciente e cultura de melhoria

Tratar o uso prolongado de IBPs como tema de segurança do paciente ajuda a deslocar a discussão de uma lógica punitiva para uma lógica de aprendizagem do sistema. O objetivo não é culpabilizar profissionais por prescrições antigas, mas criar mecanismos que facilitem decisões melhores ao longo do tempo.

Auditorias educativas, discussão de eventos adversos e ciclos de melhoria com metas factíveis fortalecem essa cultura. Quando o serviço acompanha seus próprios resultados e compartilha avanços com transparência, aumenta o engajamento das equipes e a confiança dos pacientes no processo de revisão terapêutica.

6.6 Proposta de plano operativo para serviços de saúde

Um plano operativo pode ser estruturado em quatro fases: diagnóstico situacional, implantação de protocolo, acompanhamento de indicadores e consolidação das práticas. No diagnóstico, mapeiam-se pacientes em uso de IBP há mais de oito semanas sem indicação documentada. Na implantação, definem-se fluxos, responsabilidades e materiais de apoio para profissionais e usuários.

Na fase de acompanhamento, avaliam-se resultados trimestrais e ajustam-se estratégias conforme barreiras identificadas. Por fim, a consolidação inclui incorporação das rotinas ao processo de trabalho, garantindo que a revisão de IBPs permaneça como prática institucional estável e não como projeto temporário.

6.7 Síntese estratégica

Qualificar a assistência em torno dos IBPs requer combinação de clínica baseada em evidências, coordenação multiprofissional, educação em saúde e gestão orientada por indicadores. Quando esses componentes atuam em conjunto, torna-se possível manter acesso ao benefício terapêutico e reduzir exposição desnecessária a riscos cumulativos.

Em síntese, o desafio não é escolher entre prescrever ou suspender de forma ideológica, mas construir sistemas de cuidado capazes de revisar continuamente a necessidade da terapia, respeitando singularidades do paciente e princípios de segurança farmacoterapêutica.

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise desenvolvida ao longo deste trabalho evidencia que os inibidores da bomba de prótons ocupam posição terapêutica de grande relevância na prática clínica, com benefícios amplamente comprovados em múltiplas condições gastrointestinais. Entretanto, a segurança desse grupo farmacológico depende de uso tecnicamente orientado, com indicação bem definida, dose apropriada e tempo de tratamento compatível com o objetivo terapêutico. Quando essas premissas não são observadas, a manutenção prolongada pode ampliar exposição a riscos potencialmente evitáveis, sobretudo em pacientes idosos, com multimorbidades e polifarmácia.

Os resultados da literatura apontam que parte dos desfechos adversos associados aos IBPs possui evidência consistente em subgrupos específicos, enquanto outros permanecem em zona de incerteza metodológica, exigindo interpretação crítica e individualizada. Essa constatação afasta posições extremas: não há base para demonizar a classe como inerentemente perigosa, tampouco para tratá-la como terapia isenta de riscos em uso contínuo indiscriminado. O caminho mais sólido é a prática baseada em evidências aliada ao julgamento clínico contextualizado, com reavaliações periódicas da relação benefício-risco.

Também se observou que grande parcela do uso prolongado decorre de fatores organizacionais e comunicacionais, como inércia terapêutica, ausência de revisão sistemática da prescrição e dificuldade de conduzir desprescrição em consultas breves. Nesse cenário, estratégias estruturadas de acompanhamento, educação em saúde e protocolos de retirada gradual podem reduzir reintroduções desnecessárias e melhorar a experiência do paciente. O fenômeno de refluxo rebote, quando previamente explicado, deixa de ser barreira intransponível e passa a ser etapa esperada de transição terapêutica.

A atuação do farmacêutico mostrou-se central em todas as fases do cuidado: desde a validação da indicação inicial até o monitoramento de eventos adversos, passando por orientação sobre técnica de uso, adesão qualificada, revisão de interações e apoio à tomada de decisão compartilhada. Na perspectiva da saúde pública, esse papel contribui para racionalização de custos, prevenção de danos e fortalecimento da segurança do paciente. Em termos formativos, o tema reforça a importância de competências clínicas, comunicacionais e analíticas no exercício profissional farmacêutico contemporâneo.

Conclui-se, portanto, que o uso prolongado de IBPs deve ser reservado a situações com justificativa clínica robusta e acompanhado por plano explícito de monitoramento. Para usuários sem indicação atual de manutenção, a desprescrição gradual e individualizada representa intervenção de alto valor assistencial. Recomenda-se que serviços de saúde implementem rotinas periódicas de revisão farmacoterapêutica, com participação multiprofissional e indicadores de qualidade, a fim de transformar evidências científicas em prática clínica consistente. Como perspectiva futura, sugere-se ampliação de estudos nacionais que avaliem, em condições de vida real, os resultados de programas de desprescrição liderados por farmacêuticos na atenção primária e em ambulatórios especializados.

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